10/28/2005

Portugal-Brasil

Junto envio um artigo (interessante) colocado em http://dn.sapo.pt/2005/10/27/opiniao/saudades_brasil_portugal.html


"grande Vinícius de Morais fez um fado, que Amália também interpretava, de homenagem a Portugal e à fraternidade luso-
-brasileira, chamado Saudades do Brasil em Portugal. Amália e Vinícius sentiam de forma tocante esta proximidade na diferença entre Portugal e o Brasil, árvores de comuns raízes no bom e no ruim.

Já aqui escrevi uma vez sobre a necessidade de melhor entendermos as diferenças que o tempo construiu. E de caminharmos na aproximação que os novos tempos estão tecendo a onda de imigrantes brasileiros em Portugal, invertendo a relação tradicional nesta área (já não são os emigrantes pobres de Portugal que vão, são os imigrantes pobres do Brasil que vêm); os investimentos portugueses no Brasil (as empresas portuguesas criam já cem mil postos de trabalho); os investimentos e as parcerias de empresas brasileiras em Portugal; um conhecimento da realidade actual portuguesa, que os imigrantes brasileiros levam para o seu país; uma redescoberta do Brasil pelos emigrantes qualificados e pelo crescente número de turistas portugueses no país irmão.

Mas há, de facto (minoritariamente, eu sei), na sociedade brasileira, ainda um indisfarçado rancor contra Portugal - o colonizador. Fiquei abismado, há algum tempo, quando o ex-arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, em entrevista a O Globo, justificava os problemas do Brasil e, nomeadamente, a corrupção. Transcrevo na íntegra, por fidelidade (e espanto) "Esses erros (da história recente) foram cometidos a partir dos portugueses, que descobriram o Brasil e mandaram para cá a escória da sociedade, os menos preparados, os menos desejados em Portugal. Essa foi a primeira coisa. A segunda foi dividir o Brasil em grandes propriedades, as capitanias hereditárias. (...) Portanto, acho que Portugal tem tanta culpa como o Brasil e os brasileiros daquele tempo, embora o Brasil seja o país mais habitável da terra, o país mais amigo, que melhor recebe as pessoas que vêm de fora" (esta parte, parece, já não é da responsabilidade dos portugueses, segundo D. Paulo Arns).

Esta não é a opinião de um qualquer brasileiro. Mas é, claramente, a de um brasileiro que pouco entende da História do seu próprio país, que pouco sabe do que foi a colonização em todo o mundo e do relevante papel que tiveram as capitanias (que D. Paulo critica) na afirmação do território brasileiro - para não falar da importância da aliança luso-britânica para derrotar os apetites das outras potências coloniais do tempo, que queriam penetrar e esquartejar o território e do modo como os portugueses conseguiram o milagre (ao contrário, p.e., dos espanhóis na América Latina) de manter uno e alargar o espaço brasileiro. Justificar a corrupção actual no Brasil com a colonização portuguesa de há 500 anos é obra!

Este mês ainda, a revista Carta Capital publicava um artigo de Miguel Sanches Neto, sob o título "Brasil recolonizado". Por quem, desta vez? Pois pelos novos escritores portugueses, que não deveriam estar nas prateleiras das livrarias! O artigo mereceu uma enérgica e elegante resposta do embaixador português, Francisco Seixas da Costa, o qual confessava a sua surpresa pela opinião de Neto - "uma aberta apologia do proteccionismo linguístico, do fechamento da fronteira cultural do Brasil à nova literatura portuguesa, tida por poluente veículo de uma estética convencional".

Seixas da Costa, frisando quanto a excepção de Sanches Neto não confirma a regra, salientava quanto uma minoria espreita ainda "pelas esquinas do preconceito", ao tentar fazer do Brasil e de Portugal "dois países separados por uma língua comum". Seixas da Costa lembrava, ao articulista tido por progressista, o seguinte "Na minha juventude em Portugal, a ditadura não se atrevia a privar-nos de Amado, Guimarães Rosa ou Veríssimo, a afastar-nos da Pasárgada da esperança acenada por Bandeira". E ainda: "Se alguém hoje ousasse por lá dizer que Nélida Piñon, Ferreira Goullar, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro ou o outro Veríssimo afectavam a estética literária caseira teria, como resposta, uma gargalhada do tamanho do Atlântico."

Do Atlântico do fado de Vinícius ou do Tanto Mar de Chico Buarque, acrescento eu. Porque sei que o Brasil real não é o do de intelectuais ditos progressistas, que adorariam ser americanos e que querem que a democracia faça o que nem a ditadura ousou fazer. É caso para escrever saudades do Brasil (que eu conheço) em Portugal."

2 Comments:

Blogger Zé Côdeas said...

Acho que só faltou mesmo ao autor do artigo referir algo que só não vê quem não quer: a visão (mentalidade?) que os Brasileiros têm sobre Portugal e os Portugueses fica, à partida, condicionada por aquilo que vem implícito (por vezes explícito), nos seus manuais escolares... De facto, dá muito mais jeito explicar os males do país tomando alguém por "bode expiatório" (por vezes, não convém atacar os políticos contemporâneos, também para não colocar em causa a auto-estima nacional). Tomei consciência disto ao falar com alguns colegas brasileiros de História. Enfim, também os Brasileiros não são os únicos: reparem o que dizem (cada vez mais, felizmente, "diziam") os nossos manuais escolares em relação a "nuestros hermanos" espanhóis...

10/28/2005 02:57:00 da manhã  
Blogger aNtonio said...

Será sempre assim, haverá quem prefira enterrar a cabeça na areia e culpar os portugueses quando o Brasil é independente há 2 seculos.

É um facto que o Brasil herdou de portugal muitos dos nossos defeitos culturais, mas tambem é verdade que há 50 eram os portugueses a emigrar para o Brasil, essa era a terra prometida. Culpar o passado é muito pouco honesto por parte de pessoas que se dizem racionais e que professam fe na liberdade e capacidade humana para assumir as suas responsabilidades.

10/28/2005 02:33:00 da tarde  

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